Casar e remoer,remoe,remo,rem,re,r.
Prontamente compreendo a razão pelo qual nos divorciamos da arte, sustando a canção, o baile, e no meu ato, sustando a palavra de seu baixo calão. O matrimônio com essa libertina é compassado por um tripúdio dos mais graves: debochada, desregrada, devassada. E desumana ao não ritmar.
A elocução pode ser abade, mas antes do sacerdotismo, remói a dor até tu não aguentares mais ruminação. E por fim, te fazes de puro vício: recorrendo à tua crápula esposa, novamente atinando-se em tua cama de modo perenal.
Validade não é questão, a dor é. A dor que pinica desde a unha do pedestal até o olho sarambé. Esta mesma cheia de azáfama, que vêm num samba serpentino gingando pra tua direção e te tomas por inteiro.
Tálamos são eternamente um inimigo, sabemos disso, e assim seria também com D. Arte e seus milhares de cônjuges. Por esta alegação, não te prometo enlaces. Oh minha querida,namoro contigo por mil e uma eternidades.
Olívia S.
Ciúme.
O ciúme é o mais doentio e malsão dos sentimentos. Ensurdece,cega e dilacera o coração. Transfigura o homem em voraz fera. Faz o sangue ferver até borbular as hemácias. Obstrui as veias de veneno. Enche os pulmões de fumaça cinzenta e se faz difícil a respiração. Barafunda a cabeça,impossível raciocinar. Mas ao menos,rende bons papiros.
E eu tão estulta pretendendo que eras dissemelhante dos outros, agora faz-me usar um dos mais terríveis clichês. Oh,que crime!
Careço de probatórios,careço de perícias, careço de testemunhas e enfim careço destapar que tudo não passas apenas de uma burla de uma mente corroída pelo ciúme.
E por favor,meu querido,não seja minha Capitu ou minha Desdêmona.
Olívia Sampaio.
Colombina anno 1683,Masques et bouffons (Comedie Italienne). Paris, Michel Levy Freres, 1860 .
Veritates.
Uma bordoada de epifania atingiu-lhe a testa,e a depressão nunca foste algo tão taxativo de haveres. Sim,sempre houveras de ser extraordinariamente melancólica,mas desde a última primavera, contando-lhe as tardes e crepúsculos de verão que se consumem a cada letra cravada,o tal baque de tresvario esteve rondando-lhe inquietamente a alma ,cujo porvir até então,pensei cá eu não estar de todo arruinado.
A agressividade se tornaste algo tão assíduo em seus devaneios e gestos,até então sempre tão calculados e escrupulosos,quanto a inspiração do ar que lhe manténs viva. Bradando maldições à tudo e à todos, clamando aos sete ventos vocábulos de fealdade incomensurável. Se tornaste pouco depois de completar suas dezoito primaveras, uma Megera Indomável de sua década insana.
Talvez tudo chegaste a sobrevir pela razão que já haviam lhe soprado aos tímpanos fria e melindrosamente: ” On me dit que le destin se moque bien de nouns, qu’il ne nous donne rien, et qu’il nous promet tout. “. E desde então “le destin” vem escarneceando descaradamente da pobre criatura,que não tão bela,não tão atilada e muito menos amada,encontraste o resultado disso tão jovial.
Não tenhas medo,minha cara,assistiremos à tua peleja torcendo por um felice gran finale.
O pseudônimo de megera,Olívia S.
Existem mortais que têm o poder de destruição nas mãos,como se em cada dedo houvesse uma arma ou um defeito diferente.
Tudo o que tocam,desmorona,desfalece,perde a cor,perde o sabor,e esse é o único poder que me deram quando jogaram-me nesse mundo caótico. Aquele de destruir até a si mesmo,destruir o que se gosta,o que se importa,o que se quer… Destruir exatamente tudo o que toca.
Tudo sem querer,sem intenção,porque o que se quer é cortar os dedos fora para segurar alguma coisa boa enfim.
Contractus.
Não cartear-me-ei sobre o facto. Não incitarei meu âmago a enfrentar uma Odisseia. Obstruirei todas as artérias sensíveis moralmente, sobre o crime ou o criminoso.
Cometerei assim um homicídio culposo para com um certo apreço ou a tua sintetização em meu desígnio.
Torturarei minhas voluntates,aniquilando-o. Cortarei as gargantas das ilusões,fortalecendo-me, bebendo teu sangue e me satisfazendo com o que tens a me oferecer,sugando de ti tudo, até o último suspiro de prazer.
E que seja, impuramente, carnal ,tornando cada crepúsculo um carnaval. Não tornes nada pessoal,não trague nenhuma esperança misturada à essa cinzenta massa de ânsias. Conte-me sobre tuas conquistas,faça com que eu o admire, admire sua perspicácia , seu ilibar,e seu gosto refinado.
Faça com que sejamos compartes na melhores das ações prestes a serem descobertas,e que enfim, nunca sejam por uns e outros.
Surpresa por estar de volta,Olívia S.
Fábula do sufoco.
Sufoco,sufoco. Entre o substanstivo e o verbo jorrado no meu eu quase sempre passivo,não se diferencia,não alomorfia-se,não se supera,nem ao menos com os socorros de um acento, agudo sequer.
Nem mesmo um ajuste,um acessório gramatical libertaria tais palavras da condenação. Condenadas à cárcere perpétua,à exiguidade de ar,à nequice de luz,ao lapso de expressão. Condenadas,principalmente,ao silêncio.
Condenar por qual razão ? Porque sufoco o que avisto,o que ouço,o que sinto,pelo medo de vociferar. Sufoco até todos os sentidos se tornarem um monstro que pelas entranhas morfológicas quer escapar e gritar…Dizem os falsários disfarçados de sábios, que esse ser colossal chama-se Rancor.
Mas venhamos,convenhamos,e adimitamos,isso é só uma lenda.
Sufoco, é confabular sem foco, sobre algo nunca proclamado…Inútil.
Até,Olívia S.
Se eu soubesse que o amor é coisa aguda
Que tão brutal percorre início, meio e fim
Destrincha a alma, corta fundo na espinha
Inebria a garganta, fere a quem quiser ferir (…)
E nessa saga venho com pedras e brasa
Venho com força, mas sem nunca me esquecer
Que era fácil se perder por entre sonhos
E deixar o coração sangrando até enlouquecer…
Filipe Catto .