A frase e a parede
Era uma noite de concórdia, consolo e, afeto, afinidade, amizade, apego, apreço, benevolência, benquerença, carinho, estima e quaisquer outras elocuções que possam cambiar o uso de amor.
Aquele amor arredio, retraído e suspeitamente incontestável que ambos guardavam e dividiam com outras pessoas além de eles mesmos borbulhava. Coadjuvantes atuavam o tempo todo como os amantes principais, mas naquela noite o palco via estrelas. E o pretexto essencial era que ele sabia quem sempre estaria com os textos e beijos cuidadosamente afinados, afinal.
Demasiada neblina, extraordinária alegria e uma singela caneta. Um devaneio, uma caneta e uma parede. Tinta negra e coração ingênuo. Um gracejo e uma verdade. Uma verdade e um desejo. O desejo e a neblina baralharam-se até estarem gravados na parede do quarto como cicatriz.
Dois anos depois e a autora mal consegue recordar-se do que escreveu no fragmento paralelo à cama dele, junto ao travesseiro. A folia e a poção já burlavam as percepções, mas a cristalina realidade era que em seu âmago profundo ela ansiava o pensamento do amante colado ao dela quando fossem dormir. E ela nem ao menos precisava de algo para alertá-la disso.
E talvez ele tenha cobrido com algum desenho abstrato o nome dela. Ou nem ao menos repara naqueles rabiscos, e jamais tenha reparado nela. Ou ainda o fez mais cruel e esqueceu-se, como ela o fez tola e disfarçadamente…Tola, sim! Se o tivesse realmente feito, não recordaria da parede com tanto silêncio e tempo de distância.
Olívia Sampaio
Loucura
E se caso, talvez, haja alguma possibilidade, e, ham … For loucura? Existe pusilanimidade maior que esta?
Digo, em plena sanidade, quem vos escreve nem ao menos começaria um pergaminho com um mero questionamento. Muitos temores, muitas amarras… Oh, loucura!
Até que o vocábulo em si é bonito e sedutor, se não fosse tão pernicioso. Como se fosse cômico, se não fosse trágico. Mas cada caso é um desatino, como os belos desvios, as estranhas insensatezes, as normais loucuras.
Normais loucuras? E se todos se fazem deste modo? E se a insanidade sempre foste mais rotineira que a própria rotina? As indagações, as dúvidas, tão tóxicas, também podem desviar o rumo de uma mente brilhantemente extirpada para a esquina da loucura.
Olívia Sampaio
Casar e remoer,remoe,remo,rem,re,r.
Prontamente compreendo a razão pelo qual nos divorciamos da arte, sustando a canção, o baile, e no meu ato, sustando a palavra de seu baixo calão. O matrimônio com essa libertina é compassado por um tripúdio dos mais graves: debochada, desregrada, devassada. E desumana ao não ritmar.
A elocução pode ser abade, mas antes do sacerdotismo, remói a dor até tu não aguentares mais ruminação. E por fim, te fazes de puro vício: recorrendo à tua crápula esposa, novamente atinando-se em tua cama de modo perenal.
Validade não é questão, a dor é. A dor que pinica desde a unha do pedestal até o olho sarambé. Esta mesma cheia de azáfama, que vêm num samba serpentino gingando pra tua direção e te tomas por inteiro.
Tálamos são eternamente um inimigo, sabemos disso, e assim seria também com D. Arte e seus milhares de cônjuges. Por esta alegação, não te prometo enlaces. Oh minha querida,namoro contigo por mil e uma eternidades.
Olívia S.
Ciúme.
O ciúme é o mais doentio e malsão dos sentimentos. Ensurdece,cega e dilacera o coração. Transfigura o homem em voraz fera. Faz o sangue ferver até borbular as hemácias. Obstrui as veias de veneno. Enche os pulmões de fumaça cinzenta e se faz difícil a respiração. Barafunda a cabeça,impossível raciocinar. Mas ao menos,rende bons papiros.
E eu tão estulta pretendendo que eras dissemelhante dos outros, agora faz-me usar um dos mais terríveis clichês. Oh,que crime!
Careço de probatórios,careço de perícias, careço de testemunhas e enfim careço destapar que tudo não passas apenas de uma burla de uma mente corroída pelo ciúme.
E por favor,meu querido,não seja minha Capitu ou minha Desdêmona.
Olívia Sampaio.
Colombina anno 1683,Masques et bouffons (Comedie Italienne). Paris, Michel Levy Freres, 1860 .
Veritates.
Uma bordoada de epifania atingiu-lhe a testa,e a depressão nunca foste algo tão taxativo de haveres. Sim,sempre houveras de ser extraordinariamente melancólica,mas desde a última primavera, contando-lhe as tardes e crepúsculos de verão que se consumem a cada letra cravada,o tal baque de tresvario esteve rondando-lhe inquietamente a alma ,cujo porvir até então,pensei cá eu não estar de todo arruinado.
A agressividade se tornaste algo tão assíduo em seus devaneios e gestos,até então sempre tão calculados e escrupulosos,quanto a inspiração do ar que lhe manténs viva. Bradando maldições à tudo e à todos, clamando aos sete ventos vocábulos de fealdade incomensurável. Se tornaste pouco depois de completar suas dezoito primaveras, uma Megera Indomável de sua década insana.
Talvez tudo chegaste a sobrevir pela razão que já haviam lhe soprado aos tímpanos fria e melindrosamente: ” On me dit que le destin se moque bien de nouns, qu’il ne nous donne rien, et qu’il nous promet tout. “. E desde então “le destin” vem escarneceando descaradamente da pobre criatura,que não tão bela,não tão atilada e muito menos amada,encontraste o resultado disso tão jovial.
Não tenhas medo,minha cara,assistiremos à tua peleja torcendo por um felice gran finale.
O pseudônimo de megera,Olívia S.
Existem mortais que têm o poder de destruição nas mãos,como se em cada dedo houvesse uma arma ou um defeito diferente.
Tudo o que tocam,desmorona,desfalece,perde a cor,perde o sabor,e esse é o único poder que me deram quando jogaram-me nesse mundo caótico. Aquele de destruir até a si mesmo,destruir o que se gosta,o que se importa,o que se quer… Destruir exatamente tudo o que toca.
Tudo sem querer,sem intenção,porque o que se quer é cortar os dedos fora para segurar alguma coisa boa enfim.
Contractus.
Não cartear-me-ei sobre o facto. Não incitarei meu âmago a enfrentar uma Odisseia. Obstruirei todas as artérias sensíveis moralmente, sobre o crime ou o criminoso.
Cometerei assim um homicídio culposo para com um certo apreço ou a tua sintetização em meu desígnio.
Torturarei minhas voluntates,aniquilando-o. Cortarei as gargantas das ilusões,fortalecendo-me, bebendo teu sangue e me satisfazendo com o que tens a me oferecer,sugando de ti tudo, até o último suspiro de prazer.
E que seja, impuramente, carnal ,tornando cada crepúsculo um carnaval. Não tornes nada pessoal,não trague nenhuma esperança misturada à essa cinzenta massa de ânsias. Conte-me sobre tuas conquistas,faça com que eu o admire, admire sua perspicácia , seu ilibar,e seu gosto refinado.
Faça com que sejamos compartes na melhores das ações prestes a serem descobertas,e que enfim, nunca sejam por uns e outros.
Surpresa por estar de volta,Olívia S.
Fábula do sufoco.
Sufoco,sufoco. Entre o substanstivo e o verbo jorrado no meu eu quase sempre passivo,não se diferencia,não alomorfia-se,não se supera,nem ao menos com os socorros de um acento, agudo sequer.
Nem mesmo um ajuste,um acessório gramatical libertaria tais palavras da condenação. Condenadas à cárcere perpétua,à exiguidade de ar,à nequice de luz,ao lapso de expressão. Condenadas,principalmente,ao silêncio.
Condenar por qual razão ? Porque sufoco o que avisto,o que ouço,o que sinto,pelo medo de vociferar. Sufoco até todos os sentidos se tornarem um monstro que pelas entranhas morfológicas quer escapar e gritar…Dizem os falsários disfarçados de sábios, que esse ser colossal chama-se Rancor.
Mas venhamos,convenhamos,e adimitamos,isso é só uma lenda.
Sufoco, é confabular sem foco, sobre algo nunca proclamado…Inútil.
Até,Olívia S.